Homem constrói “restaurante” para cachorros de rua

Este morador de Palmas construiu um restaurante gratuito para alimentar os cães de rua.

“Aberto 24 horas”, anuncia a placa de um novo restaurante inaugurado em Palmas. Seria apenas mais um local para refeições e bate-papo com amigos, se não fosse uma particularidade: o estabelecimento foi construído para alimentar os cães de rua da capital de Tocantins.

O restaurante é uma iniciativa do comerciante local João de Souza Araújo, responsável pela construção das instalações. O jovem de 29 anos oferece ração e água fresca para os cachorros que perambulam pelo centro de Palmas.

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A iniciativa

Não se trata de um restaurante dog friendly (expressão em inglês que indica que os peludos são bem-vindos a estabelecimentos comerciais), mas um local exclusivo para as refeições dos cachorros tocantinenses.

João costumava colocar comida para os cães de rua à sombra de uma árvore quase em frente ao seu estabelecimento comercial, uma loja de motocicletas, mas refletiu e resolveu que os peludos mereciam e precisavam de mais conforto e segurança. Por isso, construiu o restaurante.

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A inauguração foi anunciada na página do Facebook do comerciante. As despesas correm por conta de João, que conta com a ajuda da mãe para reabastecer as tigelas de ração – tarefa realizada várias vezes por dia.

O restaurante Fome Zero é um sucesso em Palmas e região. A primeira unidade foi inaugurada em 2017, ao lado da loja de motos de João. Com o aumento constante do número de clientes, o jovem abriu uma filial há poucos meses.

As instalações são simples: um estrado de madeira coberto por telhas onduladas. O restaurante Fome Zero não tem paredes – apenas os mastros que sustentam o telhado. O estilo combina com o objetivo de João: permitir que os cães se aproximem por todos os lados.

Alguns frequentadores são desconfiados e ariscos – comportamento resultante da vida nas ruas, que nem sempre é fácil, cheia de riscos e maus tratos. Por isso, o “estilo arquitetônico” do Fome Zero facilita bastante o acesso dos peludos.

O alimento e a água ficam estocados em tubos de PVC, material resistente e fácil de limpar. Para reabastecer, basta retirar a tampa e preencher o tubo. O “prato” é um cano curvo. Trata-se de material barato e fácil de encontrar, mas isto não tira, de maneira alguma, o mérito de João.

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No início o homem apenas colocava tigelas na entrada da loja. Isto, no entanto, prejudicava o movimento tanto dos cachorros, quanto dos motoqueiros. Com a instalação do primeiro “Fome Zero”, João garantiu a oferta de alimentos para os animais de rua e eliminou as reclamações dos transeuntes.

A ideia de fazer o telhado surgiu da necessidade de garantir um espaço mais fresco para os cachorros: Palmas é a capital mais quente do país, com temperaturas sempre acima dos 30°C na maior parte dos dias.

O comerciante é responsável pela compra do material de construção – já foram necessárias várias adaptações nos restaurantes – e da ração servida aos cachorros de rua. Não existe nenhum serviço público para acolhimento dos animais na cidade. Ele também mantém alguns cães resgatados em casa.

E, como é mais fácil criticar do que fazer, muitas pessoas reclamam das instalações construídas pelo empresário. No entanto, elas não prejudicam a circulação de motoristas e pedestres, nem ocorre acúmulo de lixo nos locais.

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Outros contestam a iniciativa, dizendo que é apenas uma gota de água no oceano. Para estes, é importante lembrar uma história que o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho (1935-1997), fundador do Projeto Ação de Cidadania contra a Fome, gostava de contar:

“Certo dia, ocorreu um grande incêndio na floresta. Os animais, aflitos, tratavam de correr e colocar-se em segurança do outro lado do rio. Um beija-flor, no entanto, insistia em encher o pequeno bico com água, que levava para jogar sobre as chamas.”

“Um dos animais, já seguro na outra margem do rio, viu a ave indo e vindo muitas vezes, até que decidiu interrompê-la: ‘Você não vê que essa água é insuficiente para apagar o incêndio?’, perguntou a fera, entre irônica e incrédula com o trabalho aparentemente inútil – e certamente insuficiente.”

“O beija-flor parou no ar por um instante, como apenas os beija-flores conseguem parar, e respondeu: ‘Eu sei disso, mas estou fazendo a minha parte’. E continuou carregando gotas d’água para apagar o fogo.”

Existem milhares de animais de rua no Brasil – na maioria, cães e gatos. Iniciativas como o restaurante Fome Zero com certeza não eliminarão o problema, mas conseguem atenuar a necessidade de alguns peludos. João, assim como o beija-flor da história de Betinho, está fazendo a parte dele. Um incentivo para todos que gostam de pets.