Cotidiano O Vaticano e o Tratado de Latrão

O Vaticano e o Tratado de Latrão

Em 756, Pepino, o Breve, rei dos francos, cedeu ao papa Estêvão II grande parte do território central da península Itálica. Na época, o restante da região era ocupado pelo Reino de Nápoles (ao sul) e diversas cidades-Estado (ao norte): Florença, Veneza e Pádua.

Desde que a Igreja Católica tornou-se religião oficial do Império Romano, o papa já gozava de importantes prerrogativas civis e políticas, especialmente em relação à cidade de Roma. Quando o império do Ocidente caiu, em 476, o poder caiu de fato nas mãos do sumo pontífice. O rei dos francos apenas reconheceu uma realidade política.

O Risorgimento

Ressurgimento, em português, foi o movimento político italiano para unificar o país, que era um mosaico de pequenas cidades submetidas a potências estrangeiras. O Risorgimento teve início em 1815 e arrastou-se até 1870. Em 1859, os conservadores, adversários dos esquerdistas liderados por Giuseppe Garibaldi, uniram-se e colocaram Vítor Emanuel, da Casa de Saboia, no trono do Reino da Itália, com a incorporação da Sardenha, Lombardia, Vêneto, Sicília, Módena, Toscana e Parma.

A segunda fase do movimento unificou os Estados Pontifícios ao Reino. A anexação de Roma, declarada capital, ocorreu em 20.9.1870.

Uma tentativa de acordo

O rei Vítor Emanuel III tentou acordos com o papa Pio IX, oferecendo indenização pela perda dos territórios e autonomia sobre o Vaticano (que na verdade é apenas um bairro de Roma, onde fica a Santa Sé).

O papa não aceitou o acordo e teve início a Questão Romana. Entre 1861 e 1870, a forte presença de forças militares francesas, que apoiavam as requisições do Sumo Pontífice sobre o território. Em 1870, eclodiu a Guerra Franco-Prussiana, o que obrigou o governo francês a recuar suas tropas, para defender suas fronteiras com a atual Alemanha (que à época também não estava unificada).

O papa acusou o governo italiano de tomar o “Patrimônio de São Pedro” (primeiro para da Igreja, segundo a tradição católica). Com a unificação final, Pio IX declarou-se “prisioneiro de Latrão”, apesar de o rei “ter oferecido todas as garantias necessárias para a independência espiritual da Santa Sé”, um eufemismo que significava, na prática, a perda do poder político.

O Tratado de Latrão

Com o ditador Benito Mussolini instalado no poder, foram iniciadas novas tratativas para um acordo. Em fevereiro de 1929, foi assinado finalmente o Tratado de São João de Latrão, em que a Itália reconhecia o Vaticano como um Estado independente, neutro e inviolável, sob a autoridade do papa, e o direito de extraterritorialidade do Palácio de Castelgandolfo (residência de inverno dos chefes da Igreja Católica) e das três basílicas de São João de Latrão (San Giovanni Laterani), Santa Maria Maior (Sancta Maria Maggiore) e São Paulo Extramuros (fora dos muros da cidade, local onde o papa nunca mais havia pisado).

Por seu turno, o Vaticano abriu mão dos territórios que governou desde a Idade Média, reconheceu o governo italiano e Roma capital do país. O Vaticano foi ressarcido por prejuízos financeiros, conseguiu que o Catolicismo fosse alçado à categoria de religião oficial da Itália, que o casamento religioso fosse equiparado ao civil, além da proibição do divórcio, instituição do ensino confessional obrigatório nas escolas e admissão de sacerdotes no serviço público.

Correções de rota

Depois da Segunda Guerra Mundial, o Tratado de Latrão foi incorporado à Constituição italiana, sob a condição de que o papa se declarasse neutro em todos os conflitos, atuando como mediador apenas em caso de pedidos oficiais dos governos em disputa.

Em 1978, o tratado foi reformulado. O Catolicismo deixou de ser a religião oficial da Itália, que se tornou novamente um Estado laico. No mesmo ano, o Parlamento aprovou uma nova lei sobre o divórcio. Em 1984, por fim, foi eliminada a obrigatoriedade do ensino religioso. O Vaticano, contudo, manteve sua independência política e Roma perdeu o título de “cidade sagrada”.

ÚLTIMAS POSTAGENS

Artigo anteriorComo educar gatos
Próximo artigoOs tesouros da Turquia

PUBLICAÇÕES RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui