Pequenos erros de tradução que causaram grandes problemas

Erros de tradução, mesmo pequenos, podem causar grandes problemas.

Saber falar um segundo idioma não significa necessariamente possuir habilidades para se tornar um tradutor. Tradução é uma atividade que abrange a interpretação do significado de um texto produzido em outra língua (a fonte) e a subsequente produção de um novo texto, na língua de destino, que exprima o mais fielmente possível o sentido do pensamento original.

Um jogo de palavras em italiano exprime bem o que é uma tradução: “Traduttore, Traditore” (em português, “Tradutor, Traidor”), já que o tradutor precisa “trair” o idioma fonte para produzir um novo texto no idioma de destino.

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Para tanto, além de dominar as duas línguas, é preciso deter vastos conhecimentos sobre os contextos cultural, histórico, religioso e político em que o texto foi produzido, para não gerar algumas aberrações. Alguns tradutores precisam ter também conhecimentos de Direito (para produzir as traduções juramentadas, muito comuns em processos que envolvem fatos ocorridos em dois países).

Um exemplo: de um livro alemão sobre Ciência Política, a expressão “Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterparter” (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, o partido nazista) foi traduzida como nazismo social, dois conceitos excludentes.

Tradutores automáticos

Na internet, há vários sites que oferecem serviços de tradução instantâneos. Os resultados são quase sempre desastrosos. Em alguns casos, ocorre a mera transliteração das palavras. Desta forma, é comum obter, para a tradução de “blue woman”, a expressão “mulher azul” (neste caso, “blue” significa ao mesmo tempo azul e triste, em inglês).

Algumas traduções erradas são apenas divertidas, produzidas por questões comerciais ou apenas pela “criatividade” dos produtores. O filme “Meu Primeiro Amor”, sucesso de Macaulay Culkin de 1991, causou surpresa aos fãs brasileiros: o título original é simplesmente “My Girl”, que significa apenas “Minha Garota”.

Outros filmes também sofreram desfigurações. É o caso de “The Sound of Music” (“O Som da Música”), de 1965, que chegou às telonas como “A Noviça Rebelde”. Um detalhe interessante: a atriz Julie Andrews é aconselhada pela madre superior a deixar o noviciado, mas não para de cantar (ela e toda a família postiça) durante toda a trama.

“Giant” (“Gigante”), de 1956, estrelado por Elizabeth Taylor, James Dean, Rock Hudson e Carol Baker, desembarcou em terras brasileiras com o pomposo título “Assim Caminha a Humanidade”. É uma obra sobre intolerância racial.

E não importam quantos palavrões os astros e estrelas tenham tido que pronunciar, de acordo com os scripts recebidos para contracenar em filmes clássicos (ou desconhecidos). Durante décadas, as legendas e dublagens brasileiras se limitaram a traduzi-los por “bastardo”. Quem não domina o idioma original deve ter achado os roteiristas muito sem originalidade.

Com algumas exceções, estes pequenos erros não prejudicam gravemente as obras – sejam livros, filmes ou documentos oficiais. Algumas obras se tornaram incompreensíveis e tiveram que ser refeitas, para impedir fiascos de bilheteria e de vendas nas livrarias. No entanto, alguns erros de tradução causaram graves problemas.

Erro antigo

São Jerônimo é o padroeiro dos tradutores. Ele foi um sacerdote que viveu no século XIV estudou hebraico antigo para traduzir a Bíblia diretamente para o latim, sem lançar mão das traduções para o grego (feitas especialmente no século III).

 Escultura de São Jerônimo, padroeiro dos tradutores, exposta em Varazdin, na Croácia.

Escultura de São Jerônimo, padroeiro dos tradutores, exposta em Varazdin, na Croácia.

A versão deste doutor da Igreja é a base para centenas de outras traduções posteriores, mas Jerônimo cometeu um erro grave em uma passagem da Gênese. O livro conta que Moisés, depois de receber as Tábuas da Lei do próprio Deus no Sinai, desceu do monte com a cabeça fortemente iluminada.

Na produção dos primeiros textos do Antigo Testamento, os judeus não utilizavam as vogais. O padre inadvertidamente traduziu o termo “karan” como “keren”, que significa “chifres”, em lugar de “brilho”. No século XVI, o artista italiano Michelangelo Buonarroti, em sua escultura do patriarca hebreu, simulou chifres entre os cabelos de Moisés.

Expansão imperialista

Em 1840, o governo britânico assinou um acordo com os maoris, povo nativo da Nova Zelândia, que queria proteção contra exploradores, marinheiros e comerciantes que estavam invadindo sua terra. Os ingleses, porém queriam ampliar seus domínios. O Tratado de Waitangi foi redigido em duas versões bastante diferentes.

Ilustração de trajes e armas dos maoris, feita em 1846.

Ilustração de trajes e armas dos maoris, feita em 1846.

No documento em inglês, os maoris cediam todas as suas terras para a Coroa britânica, renunciando a todos os direitos e poderes de soberania. No documento maori, traduzido por um missionário inglês, não havia nenhuma menção a cessão da soberania: os chefes da ilha concordavam apenas em partilhar os direitos de governança. É mais do que provável que este não tenha sido um erro involuntário.

Chocolates para os seus amados.

Com o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, forças americanas ocuparam o derrotado Japão e passaram a governar o arquipélago de fato, apesar de terem mantido o imperador no trono. Com isto, muitos costumes dos EUA foram introduzidos.

Um deles se deveu a um erro de tradução. No Dia dos Namorados (14 de fevereiro), maridos e namorados dão chocolates para suas amadas. A publicidade sobre a data, no entanto, chegou como “bombons para eles”. As japonesas gostaram da ideia e, desde os anos 1950, presenteiam seus homens com corações de chocolate e trufas. Um mês depois, em 14 de março, é a vez de os namorados retribuírem a gentileza. E a indústria de doces fatura duas vezes.

Problemas com traduções e com ditadores

Nikita Kruschev foi secretário geral do Partido Comunista da União Soviética entre 1953 e 1964 e, como tal, o homem forte do país. No auge da Guerra Fria – conflito não declarado entre o bloco comunista e os países capitalistas –, o ditador fez um discurso explosivo na sede da Organização das Nações Unidas, mas não antes de extravasar a sua raiva durante a apresentação da delegação americana.

Na sua vez, Kruschev sentiu coceira no pé e tirou o sapato para coçá-lo. Ao chegar à tribuna, aproveitou para bater várias vezes com o calçado durante o discurso inflamado. Ele proclamou: “Nós vamos enterrar vocês! O comunismo se desenvolve mais rapidamente e em 20 anos a URSS será mais rica do que os EUA”.

Ele se referia apenas a uma era de grandes conquistas (como o primeiro voo tripulado para fora da atmosfera terrestre, comandado pelo cosmonauta Yuri Gagarin), mas a imprensa preferiu a tradução literal e jornais de todo o mundo registraram a “ameaça comunista ao Ocidente”.

Grandes problemas

Em 1977, o presidente americano Jimmy Carter realizou uma viagem oficial para a Polônia. O país passava por uma forte crise, com salários congelados e fortes disparadas de preços. O Departamento de Estado dos EUA providenciou a contratação de um cidadão russo, fluente em polonês, mas sem experiência para interpretar profissionalmente o idioma.

O presidente Jimmy Carter, que se envolveu com erros de tradução na Polônia, nos anos 1970.

O presidente Jimmy Carter, que se envolveu com erros de tradução na Polônia, nos anos 1970.

Carter é considerado por muitos o pior presidente da história dos EUA e a visita não contribuiu em nada para melhorar a sua imagem internacional. Em seu discurso, vertido simultaneamente para o polonês, algumas falas foram completamente destorcidas. Carter teria dito coisas como “expresso meu desejo sexual pelo futuro do país” (o político usou apenas o termo “desire”, que significa desejo – mas não necessariamente sexual).

O tradutor continuou com outras pérolas: a frase “saí dos EUA hoje pela manhã” para “saí dos EUA para não mais voltar” e “estou feliz por estar na Polônia” se transformou em uma declaração incompreensível “estou feliz por me agarrar às partes íntimas da Polônia”. O caso quase se tornou um acidente diplomático, mas virou motivo instantâneo de piadas entre os assistentes.

Mais tarde, o estafe presidencial trocou o tradutor, mas os problemas continuaram. No brinde dirigido ao povo polonês durante um jantar de boas-vindas, abriu o discurso com uma frase que deveria soar bombástica – mas apenas resultou em um imenso silêncio. Na segunda frase, novamente o silêncio e o constrangimento. O novo tradutor não conseguiu entender o inglês de Carter e simplesmente optou por ficar calado.

Indenização milionária

Em 1980, Willie Ramirez, um jovem de 18 anos, foi internado em um hospital da Flórida (EUA), em estado de coma. Alguns amigos e parentes tentaram descrever as condições do rapaz, mas eles só falaram espanhol. Apenas para citar um exemplo, em Miami, atualmente 60% dos estudantes são de origem hispânica.

Finalmente, foi encontrado um profissional bilíngue foi encontrado no hospital. No contato com a família, ele cometeu um pequeno erro de tradução: verteu a palavra “intoxicado” para “intoxicated”. Em inglês, no entanto, o termo é mais assemelhado a “envenenado”, sem conotações com intoxicação por álcool ou drogas.

Os parentes de Willie acreditavam que ele havia comido alguma coisa estragada. Os médicos definiram por um tratamento de desintoxicação, mas na verdade o rapaz sofreu uma hemorragia cerebral. Por causa da demora do diagnóstico, Willie ficou tetraplégico, mas recebeu uma indenização de US$ 71 milhões por imperícia médica.

Rebranding

É uma técnica de marketing, em que uma empresa tenta renovar sua imagem no mercado, alterando seu nome, logomarca ou design, além de outros elementos de identidade visual. Em 2009, o banco transnacional HSBC teve que lançar mão desta ferramenta.

O slogan escolhido para a instituição era “assume nothing”, algo como “não fique apenas imaginando”, mas foi traduzido para diversos países como “do nothing” (“não faça nada”). Isto, em plena crise financeira internacional, que assolou economias da América do Norte, Comunidade Europeia e Japão. O slogan foi alterado para “o maior banco particular do mundo”. A brincadeira custou US$ 10 milhões.

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