Os Gladiadores do Altar

O que faz um grupo uniformizado em um templo religioso? Eles são os gladiadores do Altar.

Jovens de várias idades (todos do sexo masculino), eles adentram pelo templo, marchando e gritando que querem o altar. Os Gladiadores do Altar se perfilam em frente ao altar e batem continência para Deus. Esta é a nova iniciativa da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), criada em julho de 1977 pelo bispo Edir Macedo, ainda hoje líder espiritual desta confissão cristã neopentecostal.

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O projeto, que surgiu no final de 2014, é dirigido aos membros da “Força Jovem Universal”. O objetivo é formar, no médio prazo, novos pastores para a Igreja. O site da IURD assim descreve os gladiadores do Altar: “embora carreguem consigo a disciplina de militares, eles são outro tipo de soldados: aqueles que lutam em nome da palavra de Deus”.

Depois da construção, ao custo de R$ 680 milhões, do Templo de Salomão, em São Paulo, seguindo as orientações contidas no Antigo Testamento – as próprias paredes e o piso foram revestidos com pedras importadas de Israel –, a Igreja se volta para um novo projeto.

Desta vez, para a formação de novos pastores.

Nas reuniões semanais promovidas pela IURD, são ministradas aulas para o estudo teórico e prático da importância da obra de Deus, além dos reais objetivos de ser um gladiador: servir espiritualmente às pessoas espiritualmente, da mesma forma que um soldado não se preocupa com os obstáculos para servir à sua pátria. Os gladiadores do Altar também recebem aulas de inglês e espanhol, para o caso de terem de pregar a palavra de Deus no exterior.

O batismo das águas (única exigência formal para participar do grupo), de acordo com a filosofia da IURD, é uma cerimônia que depende do arrependimento dos pecados, que inclui: a admissão dos pecados, o ódio ao pecado e, por fim, o abandono e esquecimento do pecado. Além disto, os gladiadores do Altar precisam ter o desejo e a disposição de servir a Deus, estar preparado para o que vier pela frente e ter o altar como único objetivo.

Questionamentos sobre os gladiadores do altar

As informações citadas no texto acima se baseiam em artigos e textos doutrinários lidos no site da Igreja Universal, que chegou a informar: a marcha dos gladiadores do Altar foi apenas uma forma de apresentar o grupo para a comunidade de fiéis.

Antes de entrar nos templos, no entanto, os gladiadores do altar se organizam em ordem unida, logo à frente das igrejas, em uma nítida formação militarista. Especialistas viram nisto um golpe de marketing, já que pessoas de todas as confissões religiosas, além de ateus e agnósticos, que passavam na rua momentos antes da marcha, foram obrigados a observar, ao menos por alguns segundos, o rito.

O vídeo também foi postado em redes sociais (em 15 dias, já contava com mais de 900 mil visualizações apenas no Facebook). Nesta apresentação à comunidade, os jovens gladiadores do altar fazem uma espécie de juramento, no qual afirmam estarem prontos para a batalha e repetem (ou gritam) três vezes que querem “o altar”.

Houve muitos comentários bastante distantes do “curtir”. Centenas de internautas declararam repúdio à intolerância e discriminação, além de terem visto uma mensagem subliminar de ameaça aos não religiosos e aos fiéis de outras religiões, especialmente as afro-brasileiras.

Outros analistas consideram que o fenômeno vai além da promoção das atividades da IURD. O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) postou uma foto dos gladiadores do Altar no Instagram e comentar estar chocado com o que, para ele, é “a formação de uma milícia”.

A IURD rebateu, em seu próprio site, em termos pouco polidos (escreveu que o deputado uniu ódio a uma burrice motivada). Para a Igreja, considerar que os gladiadores do Altar são uma milícia é semelhante a enxergar orientação fascista em movimentos como o Exército da Salvação e o Movimento Escoteiro – ambos têm base cristã e também empregam analogia militar.

Apreensões

O babalorixá Sivanilton Encarnação da Mata, da Casa de Oxumaré (BA), divulgou carta aberta sobre o massacre cultural e religioso promovido pela IURD – que promove regularmente ataques verbais a outras crenças religiosas – e declarou: “se as cenas já são assustadoras no ambiente controlado das igrejas, há que se imaginar o que estes soldados da fé poderão fazer nas ruas”, a respeito do que considera ser um “exército de evangelizadores”.

Outros grupos de diversidade sexual e cultural também se manifestaram, seguindo linhas de pensamento semelhantes ao do religioso baiano.

O professor da UFCG Eduardo Gusmão, no entanto, não vê motivo para tanta preocupação. Para ele, existe uma legislação no país contra desrespeito religioso e não estamos em uma guerra santa. O doutorando em Antropologia pela UFPE, Cleonardo Maurício Júnior, também considera que a reação de alguns setores da sociedade foi exagerada. Os vídeos, em sua análise, constituem uma metáfora infeliz, mas isto não pode se traduzir em ataques nas ruas.

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