Desastres humanitários

O mundo sempre conheceu desastres humanitários, mas o conhecimento e a riqueza já são suficientes para evitá-los ou minimizá-los.

Mesmo antes do surgimento dos primeiros reinos – na verdade, uma conglomeração de cidades-Estado, como a Suméria e o Egito, por volta de seis mil anos atrás – as sucessivas culturas conheceram desastres humanitários, entre guerras e fenômenos naturais que devastaram regiões inteiras e fizeram desaparecer e surgir nações inteiras.

O “dilúvio do mar Negro”, por exemplo, teria ocorrido por volta do ano 5500 a.C. e inundado uma planície fértil a nordeste do mar Mediterrâneo, entre as atuais Turquia, Bulgária, Ucrânia e Geórgia. Não teria sido possível evitar a tragédia, evacuar a região, nem mesmo providenciar ajuda para populações inteiras que, de um momento para outro, se viram sem casa, nem terras para plantar.

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Com o fim da última Era do Gelo, o nível das águas do mar do Mediterrâneo se elevou, ultrapassando a altitude do estreito de Bósforo (então um istmo – uma faixa de terra que separa duas massas de água), o que provocou a grande inundação. A catástrofe foi debitada aos deuses e gerou mitos sobre o dilúvio, comuns entre os povos mesopotâmicos (de onde provavelmente surgiu o mito da Arca de Noé entre os ocidentais).

Certamente, cataclismos naturais não podem ser previstos com previsão – embora a ciência avance fortemente para isto –, mas podem ter o seu impacto reduzido. O mesmo não se pode dizer de guerras civis ou internacionais, conflitos étnicos e massacres. A ONU – Organização das Nações Unidas – foi criada em 1945, após a Segunda Guerra Mundial, em substituição à obsoleta Liga das Nações, com o objetivo declarado de pôr fim aos conflitos entre as nações.

Não foi o que se viu: apesar de ser uma aliança entre quase 200 países, a ONU assistiu a dezenas de conflitos, alguns deles travados mesmo com a sua desaprovação, como a Guerra Iraque-EUA, em que George W. Bush não conseguiu comprovar a existência de arsenais de armas químicas, mas mesmo assim invadiu o país e provocou um confronto que se alonga até hoje.

A própria ONU teve de esperar quase três anos para ser criada. Apesar da assinatura, em janeiro de 1942, da assinatura da Declaração das Nações Unidas pela maioria das grandes potências (26 nações, na época), a organização teve que esperar pelo fim do conflito (em setembro de 1945) para ser efetivamente estabelecida.

A terra da rainha de Sabá

Provavelmente, ninguém pode situar este reino, forjado entre mitos e lendas judaicas. Mas o lugar mais possível fica entre o Sudão e a Etiópia. Pois bem: os dois países se envolveram em conflitos que determinaram consequências calamitosas.

A Eritreia decidiu se separar da Etiópia. As duas regiões, além da Somália e de Djibuti, que formam o “Chifre da África” (porção nordeste do continente, abaixo de Egito e Sudão), provavelmente formaram um único reino há aproximadamente três mil anos.

O conflito entre os dois países se prolongou de 1998 a 2000. Pouco depois, porém, apesar das decisões internacionais, os dois países voltaram a divergir sobre as fronteiras e novos conflitos locais de verificaram (a divisa entre os dois países é um corredor de quase mil quilômetros). Em 2002, foi criada uma faixa desmilitarizada de dois quilômetros. Estima-se que 300 mil pessoas, na sua maioria civis, tenham morrido na guerra.

Uma explicação importante: entre os séculos XVIII e XIX, as grandes potências europeias dividiram entre si o continente africano artificialmente: Inglaterra, França, Portugal, Bélgica e Itália, entre outros, definiram acordos que separavam as colônias artificialmente a partir de pontos geográficos, como rios e montanhas.

Em muitos casos, isto provocou a separação artificial de etnias africanas – e também em outros casos, a reunião de grupos rivais em um mesmo “país”. Esta é a principal de conflitos civis nas nações africanas, obrigadas a conviver, em algumas situações, com rivalidades históricas – e isto nunca consegue construir uma nação.

Ainda hoje, estima-se que 300 mil pessoas tentem fugir da Eritreia a cada ano. A maioria não consegue, é encarcerada em prisões às quais não há acesso para observadores internacionais ou, na melhor das hipóteses, permanece em campos de refugiados em países estranhos aos seus costumes.

A Núbia

É um antigo território conhecido desde tempos remotos. Em “Aída”, Verdi centraliza a sua temática no conflito entre núbios e o Império Egípcio, vencido pelos últimos, o que levou a heroína da trama a ser emparedada viva. Excelente para uma obra artística, péssimo para a boa convivência entre os povos. O Sudão (antiga Núbia) foi incorporado pelos territórios árabes no século VIII, mas os sulistas escaparam do controle muçulmano (e passaram a ser caçados para posterior venda como escravos). No século XIX, a região foi ocupada pelo Egito e posteriormente pela Inglaterra.

A história continua confusa: os sudaneses expulsaram os ingleses em 1885, mas foram submetidos novamente à colonização 13 anos depois. Em 1899, os britânicos decidiram criar um único governo para as duas colônias, Egito e Sudão. A independência total só veio nos anos 1950, mas, desde então, o Sudão está tecnicamente em guerra civil.

O Sudão era o maior país do continente, até que, nesta época, o Sudão do Sul (cuja população reverencia tradicionalmente cultos ancestrais) proclamou a sua independência. A partir de então, os conflitos não pararam. Em 2004, o secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, denominou o conflito, especialmente na região de Darfur, como a pior crise universitária de todos os tempos.

As milícias governamentais invadiam o território e saqueavam gado, bens, mulheres e crianças. Dois anos depois, foi assinado o primeiro governo de paz, que estabelecia claramente o desarmamento das milícias do norte e dos rebeldes do sul, para que a paz pudesse voltar para a região.

Desde o chamado “Acordo de Darfur”, a paz não foi alcançada. Foi criado um novo grupo beligerante, a Frente de Redenção Nacional, oposto aos dois grupos. Uma nova frente de combate foi criada na fronteira com o Chade e deixou centenas de combatentes mortos ou feridos, além de gerar um novo campo de refugiados no país vizinho.

A ONU decretou que tanto o governo oficial do Sudão, quanto os líderes rebeldes dos dois grandes grupos de rebeldes, eram culpados por crimes de guerra. São considerados fugitivos e podem ser julgados pela Corte Internacional de Haia (Holanda).

Mas o resultado prático é que árabes e não árabes rejeitam o Acordo de Darfur. A Liga Árabe, a União Africana e a França apoiaram oficialmente os esforços do Sudão para suspender as tentativas de investigação, alegando, que a ação “impedia formalmente esforços internacionais de paz”. As discussões continuam nos órgãos internacionais, enquanto a morte, a fome e o exílio forçado continuam ocorrendo entre os dois países. Omar al-Bashir, presidente do Sudão desde 1989, continua sendo tratado na Wikipédia como “estadista”.

São apenas dois casos, mas outros exemplos pipocam em todos os cantos do mundo, inclusive no Brasil. Durante a Guerra contra o Terror, os EUA capturaram e torturaram diversos combatentes islâmicos (há provas evidentes). A Rússia anexou a Crimeia e incentiva outros dissidentes ucranianos a separar-se do país, numa evidente agressão contra a autodeterminação dos povos, também presente nas declarações da ONU.

Para citar casos domésticos, o país responde a mais de 300 casos de violações dos direitos humanos, que vão desde ao sequestro de filhos a homicídios de líderes sindicais e ambientalistas. Enquanto isto, partidos políticos se digladiam em torno de propostas mesquinhas, que pouco ou nada podem contribuir para o avanço do país no caminho à civilidade. É preciso, como disse Gonzaguinha, “criar um mundo novo, viva nova”.

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