Como era a vida dos piratas?

Os primeiros relatos sobre piratas surgem entre os gregos antigos. Barqueiros fora da lei se aventuravam pelas águas do mar Mediterrâneo em busca de cargas de madeira, tecidos e metais. Mas a era de ouro dos piratas ocorreu durante a Idade Moderna, quando o tráfego naval se intensificou.

Homens e mulheres que poderiam render um valioso resgate também faziam parte da “carga” cobiçada dos piratas que atuaram entre os séculos XV e XVIII. O navio interceptado também podia despertar o interesse, mas em geral os piratas deixavam que o capitão e sua tripulação, devidamente depenados, seguissem viagem.

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Os piratas tinham uma vida difícil: doenças, castigos corporais, pena de morte e abandono em ilhas remotas pontuavam as viagens em busca de ouro, prata, açúcar, madeiras nobres.

Um “invasor” também era responsável por uma série de doenças que afetavam os piratas: a ratazana castanha, nativa do Oriente, levada para a Europa nos porões das caravelas, nas viagens em buscas de especiarias nas Índias. Além de ser vetor da peste bubônica, é uma espécie bastante agressiva e suas mordidas são bastante dolorosas. Outra doença comum era o escorbuto, provocado por carência de vitamina C. O tratamento só foi descoberto no século XVIII, quando os navegantes incluíram frutas cítricas, como limão e lima, na despensa dos barcos.

A alimentação dos piratas

Com exceção dos curtos períodos em que aportavam em ilhas ou nas poucas cidades da América, a “mesa” dos piratas era bastante pobre.
As viagens transatlânticas duravam meses e não era possível carregar mantimentos suficientes para toda a tripulação. O cardápio se resumia a bolachas e peixe salgado. Sem os nutrientes necessários, a saúde se fragilizava.

Antes do embarque, os piratas carregavam o navio com garrafas de cerveja. Uma caravela de porte médio podia comportar até 16 mil litros de água. O problema é que o líquido se deteriorava rapidamente, deixando de ser potável (a maresia deixava a água salobra). Os marinheiros “matavam a sede” com cerveja engarrafada, cujo excesso foi responsável por muitos casos de desidratação.

Os bucaneiros – piratas que atacavam cidades e navios espanhóis na América Central – tinham outra fonte de alimento: carne de porco defumada. A técnica foi ensinada aos bandidos pelos índios Arawak, que habitavam a ilha Hispaniola (onde hoje ficam o Haiti e a República Dominicana). Os indígenas preparavam a carne em boucans, uma espécie de grelha. Daí veio o nome “bucaneiro”. No Caribe, os bucaneiros encontraram uma boa fonte de nutrição nas tartarugas, especialmente nos períodos em que elas se aproximam da costa para desovar.

Mesmo defumadas ou salgadas, para desespero dos cozinheiros, as carnes apodreciam rapidamente. Surgiram algumas receitas, como o salgamundi (que significa confusão), uma salada com peixes, frangos, pimentas, cebolas, ovos e o que mais se pudesse encontrar. Para acompanhar, nada melhor do que um grogue, feito com uma parte de rum para três partes de água quente com limão e açúcar (quase uma caipirinha quente). Em português, grogue é sinônimo de bêbado.

Tripulação e disciplina

Uma vez embarcados, a disciplina era muito rígida, apesar de, em muitos casos, os barcos tinham uma gestão compartilhada. Mesmo assim, do capitão do navio ao criado de camarote, todos tinham as suas funções bem definidas para a manutenção e funcionamento do navio. Durante as tempestades, toda a tripulação era convocada para impedir um naufrágio; o mesmo ocorria durante as batalhas.

Dias calmos também não eram sinônimo de viagem tranquila: os marinheiros da época dependiam dos ventos para se deslocar. Nas calmarias, os navios ficavam praticamente parados – e a situação podia perdurar por muito tempo.

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O chefe da expedição era o capitão, escolhido por suas habilidades de combate e capacidade de liderança. Quase sempre, era o responsável por contratar os demais marinheiros. No navio, o capitão tinha poder de vida e morte sobre os marujos.

O capitão era auxiliado diretamente pelo imediato, cujas atribuições iam desde a distribuição dos alimentos e bebidas até a aplicação dos castigos. O imediato também se responsabilizava por repartir as pilhagens entre os demais marinheiros.

Nos grandes navios, havia também os mestres, oficiais subalternos que mantinham a embarcação limpa e também cuidavam da manutenção das velas e cordames. Já os carpinteiros substituíam as peças de madeira danificadas, tapavam buracos e remendavam as velas. Em muitos casos, era necessário aportar em alguma ilha para conseguir matéria-prima.

O cirurgião, um misto de médico e barbeiro, era o especialista em extrair balas, amputar membros – outra marca registrada dos piratas eram as pernas de pau –, tratar feridas provocadas por armas brancas ou tiros de arcabuz ou de canhão. Para substituir as mãos, o uso de ganchos era bastante comum. Em uma época sem anestesia, fica fácil entender por que o rum – aguardente de cana produzida no Caribe – se tornou tão popular nas caravelas piratas – e em todas as demais embarcações da época.

Um navio pirata é, por definição, uma embarcação bélica: os piratas se lançavam ao mar para roubar (quando estavam a serviço de um Estado europeu, recebiam o nome de corsários). Por isto, era fundamental ter soldados a bordo. Os homens de armas eram muito procurados para as expedições. Com boa pontaria, habilidade para disparar canhões, conhecimentos sobre os ventos e muita experiência, eram muito bem remunerados.

Seus auxiliares eram os rapazes de armas, que limpavam e carregavam as armas. Eram jovens recém-chegados a bordo, oriundos das classes baixas. O sonho deles era aprender e se tornar um homem de armas. A maioria, no entanto, não sobrevivia aos combates. Eram o que hoje se conhece popularmente como “buchas de canhão”. Em inglês, eram apelidados de “fresh fish” – peixes frescos.

Os criados de camarote (ou criados de bordo) eram os jovens que não apresentavam nenhuma habilidade para a batalha. Ficavam encarregados de limpar as dependências internas do navio, ajudar na cozinha e outras tarefas de pouca importância.

Se, em alguma circunstância, houvesse necessidade de reduzir a “carga humana” – a população do navio, os criados eram os primeiros a serem dispensados – em alguma ilha ou mesmo caminhando sobre a prancha – eufemismo para designar a marcha forçada sobre uma viga de madeira até cair no mar, atados a pesos.

Vida em terra

Com um cotidiano tão difícil nos navios, os piratas “curtiam a vida adoidados” quando chegavam ao porto, especialmente quando retornavam bem-sucedidos, isto é, com boas cargas pilhadas. Eles estão prontos para a diversão e faziam a alegria de taverneiros e prostitutas.

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Muitas vezes, piratas embriagados gastavam fortunas em uma única noite – as contas dos bares atingiam centenas de peso, em uma época em que uma pequena manada de gado custava dez pesos ou menos. Apesar da atividade ilegal e da aparência rude, eles faziam a alegria de taverneiros e cafetões.

Mas a vida em terra não se restringia apenas aos prazeres. Os marinheiros precisavam retirar algas e crustáceos grudados no casco do navio, fazer os reparos necessários (ou roubar uma outra embarcação), contratar parte da tripulação (para substituir os mortos e inválidos da última excursão) e abastecer a caravela com água e provisões.

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