Animais têm sentimentos?

Ainda não existe consenso, mas há evidências de que os animais têm sentimentos.

O ser humano sempre quis manter algumas “reservas de mercado”. Já se proclamou o rei da criação, o único animal da Terra, o único a produzir cultura. Uma a uma, as trincheiras foram caindo. Apegamo-nos aos sentimentos, mas, aparentemente, nossos colegas de Reino Animal também partilham afetividade e emoções conosco, em maior ou menor grau.

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Não podemos ser os reis da criação, já que nenhum de nós jamais verá a imensa maioria das espécies que coabitam nosso planeta (não apenas por serem invisíveis a olho nu, mas principalmente por viverem em hábitats inacessíveis). Etólogos (especialistas em comportamento animal) já identificaram sinais de cultura – a capacidade de aprender e transmitir o conhecimento a seus pares – especialmente em outros primatas e cetáceos.

Qualquer pessoa que tenha partilhado um espaço com animais – os domésticos saem na frente – já identificou sentimentos em seus “room mates”. Cães, gatos, cavalos e mesmo algumas espécies de aves demonstram afetividade, contrariedade, ciúme, saudade, inclusive com expressões fisionômicas variadas. O olhar ansioso de um cachorrinho aguardando a chegada dos donos parece resolver a questão. Mas há outros motivos, além da convivência.

Com a palavra, a evolução

A Teoria da Evolução, desenvolvida a partir do século XIX, afirma que os indivíduos mais aptos conseguem sobreviver e transmitir suas características para a descendência. Na verdade, este conceito científico é praticamente uma certeza: só continua sendo chamado de teoria por falta de testemunhas.

Uma das ferramentas que permitiu a evolução dos seres é a senciência. Filosoficamente, ser senciente é ser capaz de sofrer e de sentir prazer e felicidade. É algo que se vivencia, mas não pode ser definido objetivamente.

Tratando em especial dos vertebrados, todos são dotados desta característica, que pode ser definida como a capacidade de avaliar as ações dos outros. Dos ornitorrincos aos humanos, todos nós podemos nos lembrar de nossas ações – e de suas consequências.

Com isto, é possível avaliar os riscos de certa atividade. Na natureza, o simples ato de matar a sede pode determinar a morte ou a continuidade da vida – e manter-se vivo é pré-condição para produzir novas gerações. É evidente que, quanto mais sofisticados nos tornamos, maior o elenco das formas de demonstrar sentimentos.

Exemplos clássicos

A bióloga e antropóloga inglesa Jane Goodall conviveu durante 40 anos com primatas superiores (especialmente chimpanzés), nas florestas da Tanzânia e documentou exaustivamente os hábitos destes animais. Quando falamos em sentimentos, geralmente nos limitamos aos bons, mas ela identificou raiva e dominação entre nossos parentes mais próximos.

 

Seus estudos sobre a vida social dos antropoides permitiram à ciência grandes avanços sobre a aprendizagem social, capacidade de raciocínio e de cultura destes indivíduos. É interessante notar que, em cativeiro, estas conquistas se tornam praticamente nulas.

O psicólogo César Ades, professor do Instituto de Psicologia da USP, observou que alguns destes animais costumam carregar filhotes mortos por vários dias, como se estivessem carpindo a tristeza da perda. Por outro lado, primatas órfãos exibem, por longos períodos, comportamentos muito semelhantes aos demonstrados por humanos deprimidos.

Posteriormente, outros estudos identificaram que os gorilas e bonobos já desenvolveram identidade de grupo (sentimento de pertencimento).

Por exemplo, eles estabelecem territórios de caça e coleta, mas não se limitam a defendê-lo: estabelecem estratégias de guerra, inclusive com noções de hierarquia, para ocupar outras regiões, não raro aniquilando populações de “estranhos” – animais que não pertencem ao bando.

Ainda sobre o Professor César Ades: os sentimentos de família não são exclusividade dos primatas. Diversas espécies de gansos formam casais por toda a vida e, quando a fêmea morre, seu companheiro perde a capacidade de competir, mostra-se perturbado, sem energia e às vezes chega a deixar de se alimentar. Entre outras aves, cisnes, pombas, pica-paus e beija-flores também mantêm relações conjugais estáveis.

Baleias e golfinhos são famosos por cruzar os mares em grandes bandos. Cientistas descobriram, porém, que existem afinidades especiais entre estes indivíduos. Num grupo de 100 indivíduos, há grupos familiares e, aparentemente, estabelecem relações de amizade.

Eles se preocupam com o futuro?

Um estudo com bovinos domésticos, desenvolvido pela Universidade de Bristol (Inglaterra), estabelecem fortes vínculos familiares, com demonstrações de sentimentos como amizade, rancor e frustração. Aparentemente, eles conseguem relacionar situações-limite com sensações de medo, ansiedade e dor, o que sugere que estes animais se preocupam com o futuro. Por outro lado, a alegria está sempre associada a situações prazerosas, tais como a oferta de comida, acolhida e até carinho.

Mesmo animais pequenos, como os esquilos, demonstram sentimentos. É o caso da observação de um filhote que se mantém próximo à mãe enjaulada, com expressões que parecem expressar medo, afeição e amor. Esta parece ser a “pá de cal” na lei do cada um por si.

Amigos e conhecidos

Elefantes vivem em manadas rigidamente hierarquizadas, formadas por uma fêmea dominante (a matriarca), outras fêmeas, animais jovens e filhotes. Os pares só se reúnem para o acasalamento, época em que os machos se mostram especialmente agressivos, chegando a invadir – e devastar aldeias. Machos adolescentes vivem em pequenos grupos, enquanto os adultos pastam isolados.

No entanto, estes animais imensos partilham o mesmo hábitat e, quando se encontram, dão demonstrações inequívocas de reconhecimento: fazem um barulho ensurdecedor, abanam as orelhas e passam longo tempo dando voltas.

Estas são constatações da bióloga Joyce Poole, do Fundo para Elefantes do Quênia. Depois de longos anos de observações em campo, a cientista é taxativa que estes encontros são verdadeiras reuniões de família. Eles se sentem por reencontrar amigos e conhecidos.

Adultos, estes animais têm poucos predadores, com exceção dos homens. Apesar de a caça ser proibida em praticamente todos os países africanos, ela continua a ser praticada, especialmente para a extração do marfim. A evolução, felizmente, ainda é forte: em alguns bandos, animais sem presas estão transmitindo esta característica à descendência e, assim, afastando o perigo.

Os filhotes, no entanto, costumam ser assediados pelos grandes felídeos. Os ataques quase sempre são frustrados, mas alguns acidentes acontecem. Quando um filhote morre, os adultos se reúnem em torno do cadáver e o tocam com suas trombas, numa espécie de ritual fúnebre. O mesmo já foi observado com natimortos.

Antropomorfismo

Durante séculos, os amantes dos animais de estimação foram criticados e acusados de antropomorfismo – a identificação de características humanas em seres não humanos. Apesar das fortes evidências oferecidas por nossos companheiros de jornada, boa parte da humanidade preferiu ignorar a existência dos sentimentos em ao menos parte das espécies.

A ciência, no entanto, já reuniu elementos suficientes para demonstrar que esta maioria estava errada. Para boa parte das espécies, como minhocas e insetos, a mera repetição de determinados comportamentos é suficiente para garantir a continuidade da vida e a reprodução.

Peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos, no entanto, desenvolveram um repertório mais amplo de reações. Talvez seja esta a razão para, em algum momento, os sentimentos terem entrado em ação.

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