A Amazônia pode virar um deserto?

A maioria dos ambientalistas não prevê um cenário tão catastrófico, mas, no longo prazo, a Amazônia pode sim virar um deserto.

Com o aquecimento global, mudanças no regime de chuvas crescente desmatamento, a Amazônia pode sim sofrer alterações drásticas e mesmo virar um deserto. Os números obtidos pelo IMAZON – Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia –, uma OSCIP (organização da Sociedade Civil para o Interesse Público), que monitora a derrubada de árvores na maior floresta equatorial do mundo, são muito alarmantes.

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Entre 1990 e 2000, a área total descoberta para receber pastagens para o gado e rodovias aumentou de 415 mil para 587 mil quilômetros quadrados (um território seis vezes maior que o de Portugal). A taxa anual de desmatamento cresceu declinou de 2001, mas voltou a crescer até quatro anos depois, quando a cobertura vegetal voltou a cair até 2012.

É importante lembrar que não estamos falando de recuperação de áreas degradadas, utilizadas para a agropecuária, mineração e extração madeireira (para não citar os campos de pouso clandestinos, utilizados por traficantes de drogas), de 1990 (ano em que o instituto foi criado) a 2013, a floresta perdeu mais de 10% de seu território.

Ainda é um gigante, com mais de 3,3 milhões de quilômetros quadrados, mas a perda pode representar consequências irreversíveis no médio prazo. Considerando o território ocupado pela selva em outros países – Peru, Colômbia, Bolívia, Guiana, Suriname, Guiana Francesa, Equador e Venezuela, a floresta dobra de tamanho.

Hileia Amazônica

O naturalista alemão Alexander Von Humboldt, um dos primeiros a estudar as espécies nativas da Amazônia, ainda no século XIX, descreveu a Amazônia como uma hileia (um fato desconhecido para os europeus).

Para o explorador, hileia é um local que abriga um número tão grande de espécies animais e vegetais que pode ser considerado um mundo à parte em uma área que se estende do sopé dos Andes até a fronteira do Pará com o Piauí, principalmente se considerado em relação à pouca diversidade do Velho Mundo, que conheceu uma devastação sem limites numa época em que não se conheciam os danos causados pelo desmatamento.

A Galileia, por exemplo, no norte de Israel, antes conhecida pela sua produção agrícola (figos, tâmaras, cereais, azeite e vinho), pesca (os peixes eram salgados nas águas do mar Morto e exportados para muitas regiões do Império Romano), além de gado caprino e ovino. Tudo isto, há dois mil anos. Hoje, a região é bastante desolada: não chega a ser um deserto, mas perdeu boa parte da sua exuberância. O lago Tiberíades e o mar Morto estão praticamente extintos.

De fato, a biodiversidade da Amazônica impressiona pelos números e muitos biólogos afirmam que nem 10% das espécies foram catalogadas. Por enquanto, são 2,5 milhões de artrópodes (insetos, crustáceos, aracnídeos e miriápodes). Os cientistas já descreveram mais de cem mil espécies de invertebrados em toda a região.

Ainda fazem parte deste universo: 3.000 espécies de peixes (apenas para a bacia Amazônica), 1.300 aves, quase 500 mamíferos, um número semelhante de anfíbios e pouco menos de 400 de répteis. Entre as plantas, um quilômetro quadrado da floresta possa conter mais de mil tipos de árvores e milhares de espécies de plantas superiores. Ainda não foram estudados os fungos da região em sua imensa maioria; os estudos são ainda mais escassos com relação à diversidade de bactérias.

Considerando, no entanto, que o ser humano pode ser o universo de cem trilhões de microrganismos (dez para cada célula do nosso organismo), pode-se ter ideia da imensa quantidade de espécies na região, especialmente se considerarmos os grandes predadores da região, bem maiores do que nós, como a sucuri, a onça-pintada, o jacaretinga e o jacaré-açu.

As primeiras vítimas

Como sempre, a corda arrebenta do lado mais fraco. As mudanças climáticas e a extensão da Amazônia devem provocar a extinção de dezenas ou centenas de espécies, inicialmente entre peixes e anfíbios. Nas florestas tropicais da América Central, também se observa o mesmo problema: não se sabe quantas espécies já foram extintas.

Rãs, sapos, pererecas e cecílias são animais bastante adaptáveis: conseguem habitar lagos, rios com maior correnteza, regiões de água mais salgada e até topos de árvores, onde sobrevivem se reproduzindo e colocando seus ovos nos “copinhos” das bromélias (como é o caso das rãs do gênero Dendrobates, relativamente comuns entre criadores de animais exóticos. Mas em comum, todos eles possuem um “defeito evolutivo”: não foram desenvolvidos para superar mudanças extremas de temperatura e umidade relativa do ar (por extremo, entenda-se 0,8°C). nem nós, aliás: basta que a temperatura ultrapasse os 30°C e a umidade caia abaixo dos 20% para que comecemos a experimentar vários problemas físicos e psicológicos, como ressecamento dos olhos, narinas e garganta, dificuldade nos aparelhos respiratórios e fonador, crises de bronquite e até mortes de idosos e crianças, os mais atingidos.

E nós?

Não são apenas os habitantes da floresta Amazônica que se ressentem das “artes” humanas: desenvolvimento industrial, agrícola e pecuário acelerado sem tomar as devidas defesas com a Mãe Natureza. Eles estão diretamente envolvidos, porque isto significa a destruição iminente. Mas talvez este não seja o maior dos problemas a ser enfrentado.

São Francisco de Assis costumava dizer que toda a nossa natureza é nossa irmã. Um filme de Franco Zefirelli sobre a vida do santo italiano foi batizado, não por acaso, de “Irmão Sol, Irmã Lua”. Mas não é necessário ter tanta consciência ecológica para entender os prejuízos.

Em primeiro lugar, a Amazônia não é um bioma isolado. Ela afeta diretamente ecossistemas como o Pantanal mato-grossense, a Caatinga nordestina e a floresta de Cocais, entre Maranhão e Piauí. Nestas regiões, protegidas pela umidade amazônica, haverá alterações desastrosas. O pantanal pode ter alterado o seu regime de chuvas – e o gado foi levado para aquela região por apresentar grande teor de minerais relacionados ao bom desenvolvimento de bois e vacas.

A floresta de Cocais seria fatalmente atingida, levando com ela alguns trechos do sudeste do Pará e empobrecendo as bacias do Xingu e do Tocantins. Vale lembrar que a floresta de Cocais é famosa pelas suas carnaubeiras e outros coqueiros. Toda a região seria desertificada e perderíamos boa fonte de renda com a destruição de carnaúbas, babaçus, etc.

O sertão do Nordeste seria ainda mais afetado. O litoral nordestino perdeu boa parte da cobertura vegetal litorânea (quase toda) e isto afetou o regime dos ventos, tornando o clima semiárido, com exceção de algumas regiões, como a região da mata pernambucana, em um deserto semelhante ao de Nevada, no centro-sul dos EUA.

Os problemas não param aí: as “próximas vítimas” são a mata Atlântica e os pampas do Sul. Na mata Atlântica, concentram-se também as matas de Agreste do litoral nordestino, que teriam o mesmo destino de outras regiões da costa da região.

É preciso pensar em alguma coisa rapidamente para resolver o problema. Se isto não acontecer, é possível que se cumpra a profecia do místico Antônio Conselheiro, que conduziu a Guerra de Canudos, no final do século XIX, em pleno sertão baiano: “o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. Deste jeito, nem Iara, a mãe d’água, vai conseguir sobreviver.

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